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Dos presentes que nem todo mundo quer

novembro 15, 2010

Há uns dois anos eu recém tinha entrado numa empresa e já tive me acostumar com a idéia de que iria ter de participar da brincadeira feliz do Amigo Oculto. Pois bem.  No dia em que puxamos os papeizinhos para saber a quem presentearíamos, vi um monte de gente preocupada sobre o que dar de presente.

Comigo eu dizia “Já sei o que vou dar.”

Naquele mesmo dia, quando cheguei em casa carregada daquela certeza de já saber o que dar de presente para a meu amigo oculto,  minha irmã me fez uma revelação que doeria em meu coração até hoje:

“Sabe, PP, nem todo mundo gosta de ganhar livros.”

EU

=

 

COMOASSIM, MANOLA? D8

Foi como me dar um soco bem no estômago. Quase me faltou o ar, o equilíbrio e a calma. De repente eu me vi totalmente perdida. PUTA MERDA! Exclamei, pacientemente, NÃO SEI MAIS O QUE DAR DE PRESENTE!

Foi assim que essa revelação doentia me bateu à porta.

Foi também assim que comecei a perceber que de fato nem todo mundo era como eu. Na verdade, quase ninguém era como eu. Hoje em dia eu fico pensando ‘Caraca, ninguém é como eu.’

Não sou narcisista nem autossuficiente (não sei mais escrever auto-suficiente depois da reforma… é assim mesmo? FODA-SE, não ligo mesmo.), sei que preciso das outras pessoas para sobreviver. Afinal sou um zero à esquerda no quesito ‘sobrevivência’. Eu me viro sozinha quando a obrigação bate na porta. Vivo na base da teoria do caos involuntariamente e ainda acredito que virarei um dos duendes do Papai Noel quando eu morrer, ou um Oompa-Loompa, ou…

Mas a questão primordial aqui é: Como é possível que existam tantas pessoas que NÃO GOSTAM de ganhar livros? Isso é aberração! Anomalia! Doença! SAIAM DE PERTO DE MIM, SEUS DOENTES! Sente o preconceito aí, sente! Eu tenho pavor de quem não gosta de ler! Fico assim achando que a pessoa é desprovida de massa encefálica. Fico pensando que eu sou um ET e nasci no planeta errado! IRMÃOS, VENHAM ME BUSCAR!

Essa balela toda é só pra lembrar que o Natal está chegando. (ISSO É O QUE DIZEM OS COMERCIAIS, AS LOJAS, OS MARKETEIROS, OS CARROS DE SOM PELA CIDADE, AS PROMOÇÕES, exceto o calendário… pra ele ainda falta mais de um mês! E um mês é tempo de sobra pra acontecer um monte de coisa.) Então, minha gente, lembrem-se: Nem todo mundo gosta de ganhar livros, mas eu gosto.

Para que isso aqui não seja totalmente inútil, vou deixar uma citação que realmente vale a pena ler:

Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos-, vamos regressar.

Carlos Ruiz Zafón in A Sombra do Vento

Então, galerinha analfa, fica a dica. LEIÃO! /sente a ironia na palavra final. ;D

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Política de Boteco no Fim do Universo

outubro 20, 2010

É assim, uma coisa engraçada, a política. O mundo todo vive com base na política. Uma vez li num livro que o ser humano é descendente de extraterrestres. Do tipo bem gafanhoto – vem, consume tudo, e migra pro próximo (sinto que nossos antepassados não nos deixaram a nave espacial como herança). A política, segundo o mesmo livro, existe só pra complicar a vida dessas criaturas.

O livro é “O Restaurante no Fim do Universo” segundo livro da Franquia “O Mochileiro das Galáxias” uma trilogia de quatro livros que, incrivelmente, foi concluída no quinto livro. É. Coisa de gente criativa, mesmo. Coisa de Douglas Adams.

Basicamente o livro nos faz pensar que somos descendentes de uma raça muito burra. Sério, burra mesmo. Do tipo que precisaria de Quinhentas e setenta e três reuniões de comitê e ainda sairiam de lá sem descobrir o fogo.

Decididamente evoluímos da espécie errada, Brasil. De uma espécie muito preocupada com burocracias e com a produção de documentários falando sobre nós mesmos ou a vida selvagem na África.

Alguém poderia me perguntar onde está a política nesse texto. Pois bem, está aqui. A nossa política é pré-histórica. Basicamente porque ainda parecemos os mesmos alienígenas que apareceram por aqui há uns dois milhões de anos e disseram que os primatas viviam em cavernas (que na verdade podiam ser cabanas, pensem a respeito). Nossa evolução dá-se sempre por meio de uma burocracia ilimitada.

Daí então hoje em dia a política virou palhaçada e não estou falando do Tiririca. Falo é dessa mania que temos de associar a política à governo e campanhas eleitorais. Política é mais que isso. Ou pelo menos deveria ser.

Política deveria ser ORGANIZAÇÃO. Uma arte. Uma facilitadora da vida. Sabe, fazer o que se tem que fazer para que a vida faça algum sentido sem dar medo na gente. Deveria ser assim. Mas sabe como é a política é vista hoje em dia, minha gente?

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Dois meninos do buchão batendo boca em rede nacional. Uma coisa linda de se vê, é claro. E o choro é só pra deixar o ambiente mais ameno, já que o circo está formado.

Engraçado é que o dia 31 de Outubro é dia das bruxas e, pasmem, o Data Folha confirma.

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Mundo Velho

outubro 5, 2010

Hoje fiz algo que faz tempo não fazia. Pensei no mundo.

Faz tempo que não faço tal coisa por mera preguiça, desinteresse – falta de amor ao próximo, mesmo. Daí hoje parei, olhei pela janela (só pelas persianas, se é pra ser sincera) e pensei nesse habitat natural ao qual nós – humanos, primatas, homo sapiens-sapiens –, estamos acostumados e sabe o que vi? Um monte de gente doente.

Não é doença física, não. Não é dor nem câncer. Não é AIDS, nem drogas, nem medo. Não é nem mesmo gripe. É doença da alma. Impregnada. Doença do tipo feroz, que mata. Doenças da alma são tantas que eu me sentia doente só de enxergar pelo mínimo que a janela me permitia naquela fresta.

Os humanos estão podres. É a mentira, a falsidade. Essa corja de moralistas a solta, gritando por Deus e crucificando Satanás. E, admito, acho cômico. Todo esse desespero pela moralidade. “Vocês vão para o inferno se fizerem isso” eles dizem. Quem dizia isso, se me lembro bem, eram os papas, os padres, bispos, o diabo a quatro do tempo da inquisição, do tempo da venda das indulgências.

A sem-vergonhice continua a mesma. Só mudou de religião.

Não bastasse isso, essa pureza mentirosa que todo mundo carrega na cara, ainda me vêm vários bons homens, com seus sorrisos plásticos, falando da beleza da mulher, da santidade do corpo, da benevolência da alma. No fundo eles querem é sexo. Querem festa. Só uma trepada, como dizem. Gozar e se lavar pra aproveitar o resto da festa. Não é só homem macho, não. É homem fêmea, também. Mulher, que se faz tão boa, tão meiga, tão pura e depois, ao se trancar com um outro ser – seja ele macho ou fêmea – solta suas feras e esquece a tal da moralidade, a tal da elegância e da santidade.

Santidade!

Fala pra mim quem é santo?

Você não cansa? Não cansa de, também, bancar o santo? De não falar tal coisa pra não ser anti-ético. De não votar em tal idiota porque o tal é anti-cristo. Não votar em tal fulana porque não quer ser chamado de burro!

Esse mundo é ridículo.

A utopia que tantos querem nem sequer poderia ser projetada nele! Esse mundo tá cheio de hipocrisia e moralidade falsa, de uma intrínseca necessidade de parecer puro, limpo, criança. Cansou. Esse mundo está velho! Essa raça está suja. Doente demais.

Se eu pudesse eu ia pra marte. Não é isso que dizem? Os incomodados que se retirem!

Incomodo-me mesmo! Odeio mesmo! Falo mesmo! Dane-se! Vou ferir sua benevolência, ó pregador da maravilhosa terra santa que todos nós recebemos?

A terra é santa, mas os habitantes são ratos. Piores que ratos, pois não quero ofender a imagem dos pobres animaizinhos.

São sanguessugas – bichos nojentos, escrotos, imundos – sugam a gente como pernilongos. Pragas. Desses não tenho problemas em criticar. São como sapos. Molhados, nojentos, pulando de canto em canto com sua frieza encarnada na ponta dos dedos.

Não me mato porque apesar de tudo eu não sou tão fraca. Não amo esse ambiente criado pelos homens, não. Não amo essa necessidade de tecnologia que eu mesma tenho. Também adoeci. Minha alma me dá nojo. Fico olhando pra mim mesma no espelho e penso ‘O inferno que quero ser parte dessa gente ridícula!’ Mas sou.

E sabe o que os pseudo-moralistas vão me dizer? Que eu preciso de um psicólogo, que eu preciso amar e ser amada. Vão dizer que eu preciso ler, estudar, pensar na vida, parar de ser bruta. Vão dizer que sou infeliz, que me falta alguma coisa na vida.

Pelo amor dos deuses que vocês pregam! ACORDEM! O que me falta é sinceridade vinda do mundo todo! Falta ligar a televisão e escutar a verdade nua e crua, sem ser lapidada. A verdade que dói, que fere, a verdade sobre o que está acontecendo com o clima, com a camada de ozônio. Quero saber quando o mundo acaba! Quero saber quem foi que matou a poesia! Quem foi que disse que Elvis morreu, quem foi que disse a Lennon que o sonho existiu.

Quem foi que nos disse que isso aqui está bom do jeito que está?

Você acredita? Então tá. Não conte comigo. Não tente me convencer de que vale acreditar nessa maioria burra que sobrevive no mundo como se estivesse num barco a ponto de naufragar.

Não tem esse lance de fazer minha parte. Vou só ser quem eu sou. Ser quem eu quero. Ser sincera do jeito que espero que sejam. Dizer o que penso. Mesmo que doa. Não sei mais mentir pro mundo, nem pra ninguém.

Não sei fechar os olhos antes de dizer ‘obrigada pela comida’ e fingir que tudo é perfeito depois disso. Tem gente morrendo em vários cantos do mundo, com fome, enquanto você está comprando um carro novo pra chegar mais cedo na igreja.

Humanidade burra. BURRA. BURRA!

Esse lance de cada qual fazer sua parte não funciona! ENTENDEREAM? NÃO FUNCIONA! Tem que ser em conjunto. Tem que ser o mundo todo lutando por um bem comum. Mas fica esse egoísmo deixando rastros de podridão por onde passa.

Não sei se ainda tem remédio pro mundo. Essa doença que pega todos nós ainda continua se alastrando por todo canto.

Não adianta tentar ser criança. As crianças aprendem a ser egoístas antes de dizer mamãe e papai.

A pureza está fugindo desse mundo.

E não venham me dizer que minha esperança acabou, pois eu vou, no máximo, rir da sua cara.

Abra a sua janela e me diga, tem alguma coisa realmente bonita aí fora que não seja carregado pelas asas de uma borboleta?

A humanidade é o vírus. Extermine-a, e eu posso acreditar que ainda há futuro para esse planeta triste.

Hoje eu acordei cansada.

É isso.

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A terra devastada e a chuva cálida

setembro 22, 2010

CAPÍTULO 49

NO TERRAÇO DE LADY MURASAKI, uma cerejeira pendia de uma jardineira sobre a mesa, seus galhos mais baixos esfregando-se nos cabelos de Hannibal enquanto ele sentava-se em frente a ela. Acima do ombro dela, um Sacré Coeur iluminado pendia no céu noturno como uma gota da lua.

Ela estava tocando “O Mar na Primavera”, de Miyagi Mi-chio, no comprido e elegante koto. Seu cabelo estava para baixo, a luz da lâmpada cálida na sua pele. Ela olhava firmemente para Hannibal enquanto tocava.

Ela era difícil de avaliar, uma qualidade que Hannibal achava interessante a maior parte do tempo. Ao longo dos anos, ele aprendera a proceder, não com cautela, mas com solicitude.

A música diminuiu progressivamente. A última nota pairou imóvel. Um grilo suzumushi numa gaiola respondeu ao koto. Ela pôs uma fatia de pepino entre as barras e o grilo puxou-a para dentro. Ela parecia olhar através de Hannibal, além dele, pa­ra uma montanha distante, e então ele sentiu a atenção dela envolvê-lo enquanto pronunciava as palavras familiares:

— Vejo que você e o grilo cantam em concerto com meu coração.

— Meu coração palpita à sua visão, que ensinou meu coração a cantar — disse ele.

— Entregue-os ao inspetor Popil. Kolnas e o resto deles.

Hannibal terminou seu saque e baixou seu cálice.

— São os filhos de Kolnas, não é isso? Você dobrou garças pelas crianças.

— Dobrei garças pela sua alma, Hannibal. Você está à deriva na escuridão.

— Não à deriva. Quando não podia falar, eu não estava à deriva no silêncio, o silêncio me capturou.

— Do silêncio você veio para mim e falou comigo. Você sabe, Hannibal, e isto não é um conhecimento fácil. Você está à deriva na escuridão, mas também está à deriva para mim.

— Na ponte dos sonhos.

O alaúde fez um pequeno ruído enquanto ela o colocava no chão. Ela estendeu a mão para ele. Hannibal se levantou, a cerejeira rastejando através de sua face, e ela o conduziu para o banho. A água estava fumegante. Velas ardiam ao lado da água. Ela o convidou a sentar-se num tatame. Estavam com os joelhos colados, os rostos afastados poucos centímetros.

— Hannibal, venha comigo para o Japão. Você poderia atender num consultório na casa de campo de meu pai. Há muita coisa a fazer. Estaríamos juntos lá. — Ela se aconchegou a ele. Beijou-lhe a testa. — Em Hiroshima as plantas verdes se impelem através das cinzas para a luz. — Ela tocou-lhe a face. — Se você for a terra devastada, eu serei a chuva cálida.

Lady Murasaki pegou uma laranja de uma tigela ao lado da banheira. Ela a cortou com as unhas e pressionou sua mão fragrante nos lábios de Hannibal.

— Um toque real é melhor do que a ponte dos sonhos. — Ela cobriu a vela ao lado deles com um cálice, deixando-o emborcado sobre a vela, sua mão mais estendida do que devia estar.

Ela empurrou a laranja com o dedo, e ela rolou pelos ladrilhos para dentro da banheira. Ela colocou a mão na nuca de Hannibal e o beijou na boca, um broto em floração de um beijo, abrindo-se rapidamente.

A testa dela fez pressão contra a boca de Hannibal, e ela desabotoou a camisa dele. Ele abraçou-a o máximo que pôde e olhou para sua face adorável, o brilho dela. Estavam pró­ximos e estavam distantes, como uma luminária entre dois espelhos.

O quimono dela caiu. Olhos, seios, ponto de luz em seus quadris, simetria sobre simetria, o fôlego dele se encurtando.

— Hannibal, prometa-me.

Ele a puxou para si com muita firmeza, seus olhos semicerrados fortemente. Os lábios dela, a respiração em seu pescoço, a depressão em sua garganta, em sua clavícula. Sua clavícula. A balança de São Miguel.

Ele pôde ver a laranja boiando na banheira. Por um instante foi a cabeça do pequeno cervo na banheira borbulhante, chifran­do, batendo ao ritmo de seu coração, como se na morte ainda estivesse desesperado para sair. O condenado em grilhões debaixo de seu peito marchava através do seu diafragma para o inferno abaixo das balanças. Esterno-hióide, omo-hióide, tiro-hióide, juuugular, aaamém.

Agora era a hora e ela sabia disso.

— Hannibal, prometa-me.

Um batimento, e ele disse:

— Já prometi à Mischa.

Ela ainda ficou sentada junto à banheira até que ouviu a porta da frente fechar. Pôs seu quimono e cuidadosamente amarrou a cinta. Pegou as velas da banheira e colocou-as diante das fotografias no seu altar. Elas reluziram nas faces dos mortos presentes, e na armadura vigilante, e na máscara de Date Masamune ela viu a morte chegar.

Trecho do Livro HANNIBAL RISING (A ORIGEM DO MAL) de Thomas Harris;

Pois de todos, esse foi o mais belo, mais poético, mais real momento de amor que Hannibal foi capaz de demonstrar por Mischa. Por mais que eu ame Lady Murasaki, nada me encanta mais que Mischa.

ANNIBA! \O/

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Uma arma

setembro 19, 2010

Às 2:27 da madrugada, o telefone toca.

Dou um pulo da cama, saio correndo e olho pro telefone. Isso não está me cheirando bem.

— Alô?

A voz do outro lado espera.

— Alô? — repito.

Finalmente a voz se manifesta, e consigo imaginar a tal boca, articulando as palavras. A voz é seca, de taquara rachada. É simpática, mas com um tom completamente profissional.

— Dê uma olhada na sua caixa de correios, Ed.

Um silêncio toma conta e a voz desaparece completamente. Não ouço mais nenhuma respiração do outro lado.

Ponho o telefone no gancho e ando devagar até a porta da frente, chegando à caixa de correios. Não tem mais nenhuma estrela no céu e está caindo uma garoa fina à medida que vou me aproximando. Estou com as mãos tremendo quando me inclino e abro o trinco. Coloco a mão lá dentro.

Toco numa coisa fria e pesada.

Meu dedo toca no gatilho.

Sinto um calafrio.

(…)

São três da manhã, estou tocando Proclaimers no último volume e tenho certeza de que tenho que matar alguém. Agora sim minha vida realmente encontrou um sentido, não acha, não?

Uma arma.

Uma arma.

Aquelas palavras me atingem, e eu não paro de olhar pra ela, pra ver se isso está acontecendo mesmo. A luz branca da cozinha chega até a sala. Porteiro estica as patas e me arranha de leve, pedindo um cafuné.

— Sai fora, Porteiro! — reclamo, puto da vida, mas os olhões marrons dele me pedem pra relaxar.

Eu amoleço e faço um chamego na barriga dele, peço desculpa e preparo um cafezinho pra gente. Vai ser ruim de eu dormir hoje. Os Proclaimers estão só esquentando com aquela canção que vai da tristeza à felicidade — a que vem depois de Five Hundred Miles.

Ed Kennedy, personagem de Markus Zusak em Eu Sou o Mensageiro.

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Delito contra a natureza

agosto 26, 2010

Uma sensação de ventura infinita espalhava-se em todo o corpo. Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados,  como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse — uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade…

— Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.

E consumou-se o delito contra a natureza.

Adolfo Caminha em O Bom Crioulo

Um amigo meu, uma vez, chegou para mim com certa angustia. Seu rosto falava para mim o quão tenso e inquieto estava. Sentou ao meu lado, a cabeça baixa encarando o chão como se este lhe escrevesse um discurso. Com aquele silêncio vivendo entre nós, permanecemos quietos, observando cada um a própria alma. Eu via um vazio imenso que me impedia de ver com claridade o que se passava em minha cabeça. Ele via um amontoado de culpa que o tornava incapaz de confessar seus medos.

- Tenho uma coisa para confessar.

- Procura um padre.

Ele sorriu. O primeiro sorriso desde a chegada. O penúltimo antes do fim da conversa.

- Promete que não vai ficar estranha comigo depois que eu contar?

Imagina-se mil coisas quando alguém nos pede para prometer algo assim. Imagina-se que nos traiu, que mentiu, que foi falso, que nos fez mal, que é um desgraçado, que vamos ficar estranhos com eles mesmo prometendo não ficar e, mesmo assim, prometemos.

- Claro. O que pode ser tão ruim?

Mais um silêncio que derrubaria aviões. Pesado demais. Eu quase podia ver a cor daquele momento mudo. Amarelo sem graça. Amarelo doente, como uma embriaguês. Esperei as palavras dele como quem espera um filho. Esperei a razão pela qual eu ficaria estranha com o meu querido amigo. “Anda logo” eu dizia em minha mente. “Calma, me dê mais um tempo” ele sussurrava com seus pés se cruzando no chão.

- Eu sou gay.

Aí nesse momento pensei: por que diabos ele achou que eu poderia ficar estranha por tão pouco? Será que tem mais? Que bobo. E aí sou obrigada a diminuir a carga que me é dada como se fosse o peso de toneladas. Transformo em gramas, poeira. Quase nada.

- É só isso? Francamente.

Silêncio.

Outro sorriso.

Fim da conversa.

Tomamos um sorvete no final da tarde e não falamos mais nada.

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Uma coisa

agosto 19, 2010

— Você tem que entender uma coisa, Ed.

— O quê?

Com cuidado, ela diz:

— Acredite ou não, é preciso muito amor pra te odiar desta forma.

Tento entender.

Mark Zusak em Eu sou o Mensageiro

by ~dimitriskoskinas (DEVIANTART)

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Arco-íris

agosto 15, 2010

Meu amigo bem que dizia: Piloto bom desvia de arco-íris.

Desviei de uma poça d’água com dificuldade, quando olhei pro céu na esperança de ver manobras coloridas de algum aero-modelo.

Não sei piolotar nem meus pés… nunca vou chegar à direção.

Por isso eu agora digo… vou virar um arco-íris e torcer para piolotos bons desviarem de mim.

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A lenda do Espantalho

agosto 6, 2010

Era uma vez um espantalho que não tinha amigos… Trabalhava em um campo de trigo, não era um trabalho difícil… mas sim muito solitário. Ninguém com quem conversar. Seus dias e suas noites pareciam eternos… só o que podia fazer era olhar os pássaros; cada vez que passavam, ele os saudava.. Mas eles nunca respondiam. Era como se tivessem medo.

Um dia, o espantalho fez algo que era proibido…Ofereceu uma semente aos pássaros, mas mesmo assim os pássaros não queriam saber de nada. O espantalho perguntava-se por que ninguém queria ser seu amigo…

O tempo passou, até que numa noite sombria… caiu aos seus pés um corvo cego; o corvo estava tremendo e morrendo de fome… O espantalho decidiu que ia cuidar dele; depois de uns dias, o corvo cego melhorou. Antes de se despedir o espantalho perguntou-lhe  por quê os pássaros não queriam se fazer amigo dos espantalhos. E o corvo explicou-lhe que o trabalho dos espantalhos era assustar os pobres pássaros, eram seres malvados e desprezíveis, uns monstros! E o espantalho ofendido, lhe explicou: – Não é verdade!!, eu por exemplo não sou ruim, e sou um espantalho; e mais uma vez o espantalho tinha ficado sem amigos…

Nessa mesma noite decidiu mudar sua vida. Despertou seu amo e lhe disse que queria outro emprego, que não queria assustar mais os pássaros. O amo ao ver que seu espantalho falava.. GRITOU !!!..

Aterrorizado acordou a todos os vizinhos contou que seu espantalho tomou vida e que só poderia ser obra do diabo;

Eis que ali por perto estava o corvo cego e seus companheiros lhe explicaram que os vizinhos da aldeia estavam queimando um moinho…Onde tentava se esconder um espantalho com um cachecol muito cumprido, o corvo cego então contou a seus parceiros que ele era o espantalho bom, e que tinha-lhe salvado a vida..

Os corvos, emocionados com a história quiseram salvar o espantalho, mas era tarde demais, e não podiam fazer mais nada.

O espantalho morreu queimado…

Os corvos esperaram até o amanhecer e quando quase não tinha mais fogo foram até o resto do moinho, pegaram as cinzas do espantalho e voaram pro alto, bem alto e de lá jogaram as cinzas pelo ar e o vento espalhou as cinzas para todos os lado. As cinzas voavam juntas com todos os pássaros e deste jeito o espantalho nunca voltou a ficar só; por que as suas cinzas agora voavam com seus novos amigos.

Na memória da trágica morte do espantalho, o corvo cego e todos seus parceiros decidiram vestir-se de luto…E por isso desde esse dia em memória do espantalho, todos os corvos são… negros!

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Saudade

julho 9, 2010

“Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim -enfim, mas que medo – de mim mesma.”

Clarice Lispector

Hoje descobri que se eu não fizer o que eu quero fazer AGORA, o nunca vai ser a data mais próxima para que eu faça.

Sentido? Acho que não faz.

Mas funciona assim. No final é sempre assim.

Ou isso ou aquilo. Ou nada. O nada, cobiçado, exagerado e grosso nada. Ninguém quer nada demais, nada de menos. Eu queria só entender o nada.

Demais?

Sentido? Acho que faz.

Retirado do Blog "Manuela Alves", clique para visualizar.

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